Ensino
em ambiente natural
Ensino
em Ambiente Natural – Uma abordagem centrada na motivação do estudante A
Análise de Comportamento Aplicada (ABA) é uma ciência que possui 28 práticas
baseadas em evidências para intervenção educacional e comportamental junto a
crianças, adolescentes e adultos com Transtorno do Espectro Autista.
Entre
essas práticas, estão o Ensino em Ambiente Natural (EAN) e o Ensino
Naturalístico ou, como também é conhecido, ABA Naturalista. O EAN é um modelo
que prioriza intervenções pouco invasivas e que partem sempre do interesse do
estudante e de suas interações naturais com as pessoas de seu cotidiano.
De
acordo com Rogers e Dawson (2010), o EAN se trata de uma abordagem de ensino
que tem como destaque a iniciativa e a espontaneidade da criança, além disso é
uma abordagem que pode ser integrada em contextos naturais.
Diferente
das intervenções estruturadas, que geralmente ocorrem em ambiente terapêutico e
controlado, essa intervenção pode ocorrer em qualquer ambiente já conhecido
pelo estudante, como sua própria casa, a escola e demais lugares que frequenta.
O
controle sobre o ambiente é do estudante e as interações rotineiras são
utilizadas pelo profissional para promover o aprendizado.
Possibilidades
e desafios do Ensino em Ambiente Natural Uma das características do TEA é a
super seletividade, que pode ser alimentar, por objetos específicos ou lugares.
Segundo Nunes (2003), essa característica implica em déficits na generalização
e na dificuldade de ampliar o aprendizado para situações semelhantes.
É
necessário que as intervenções educacionais sejam desenvolvidas nos vários
ambientes frequentados pelo estudante autista. Justamente por não haver um
controle rígido sobre o ambiente e as interações no EAN, alguns elementos podem
se tornar desafios para o processo:
Baixo
controle de estímulos: o barulho dos carros passando na rua, o volume da
televisão e outras pessoas que estejam no ambiente.
Todos
esses estímulos podem influenciar no processo de intervenção. Ambientes
minimamente manipulados: pessoas com TEA podem apresentar hipersensibilidade a
mudanças, mesmo que sejam pequenas.
É
essencial que o ambiente seja minimamente manipulado, mesmo que haja intenção
educativa na mudança de elementos do ambiente. Baixa taxa de resposta: o
processo de intervenção em ambiente natural sempre deve partir do interesse do
estudante.
As
respostas emitidas a cada estímulo podem ocorrer de forma menos evidente em
comparação aos métodos estruturados.
No
entanto, a possibilidade de generalização é aumentada. Tempo de observação e
intervenção pode ser maior: o profissional deve ter disponibilidade para
acompanhar o estudante em sua rotina diária, e isso demanda maior tempo de
observação e intervenção.
Alguns
programas indicam cerca de 25 a 40 horas semanais para o Ensino em Ambiente
Natural. Apesar dos itens acima poderem
representar desafios para o trabalho do profissional ABA, o EAN mostra
evidências favoráveis e significativas para o desenvolvimento de habilidades e
comportamentos em estudantes com TEA.
Modelos
de intervenção: currículo e programas O EAN possui vários modelos de
intervenção, baseados em currículos e programas estruturados. A maioria dos
programas está em língua inglesa, mas o profissional poderá elaborar seu
próprio programa conforme as necessidades e possibilidades do estudante e sua
família.
Dentre
os mais conhecidos estão: Modelo Denver: Já traduzido para o português europeu,
esse modelo propõe intervenção comportamental precoce para crianças com TEA de
12 meses até 5 anos de idade, com objetivo de promover a linguagem, a
aprendizagem e a socialização.
Modelo
Jasper: Disponível apenas em língua inglesa, é uma proposta de intervenção
baseada em jogos e brincadeiras lúdicas para ensinar habilidades de comunicação
social a crianças pequenas com autismo. É um modelo desenvolvido pela Dra.
Connie Kasari na Universidade da Califórnia.
O
modelo propõe ajudar crianças verbais e minimamente verbais a aprenderem
habilidades básicas de comunicação social e a se envolverem no conjunto
familiar e profissional. Pivotal Response Treatments: Conhecido como PRT é um
programa de tratamento comportamental que usa brincadeiras e atividades lúdicas
para ensinar e reforçar novos comportamentos de socialização.
Disponível
apenas em língua inglesa, o modelo propõe que as áreas essenciais do
desenvolvimento são elementos-chave para desenvolver competências sociais para
uma comunicação bem-sucedida.
SCERTS:
Modelo disponível apenas na língua inglesa, The SCERTS Model é uma abordagem
educacional de estrutura multidisciplinar que aborda os principais desafios
enfrentados por crianças e pessoas com TEA e deficiências relacionadas, e suas
famílias. Ele foca na construção de competências em comunicação social,
regulação emocional e apoio transacional.
É
aplicável a pessoas de qualquer idade em ambientes domésticos, escolares e
comunitários. Etapas de construção do planejamento de intervenção em ambiente
natural É comum pensarmos que intervenções em ambientes não controlados
requerem atividades improvisadas.
No
entanto, o EAN não é a base de improviso e demanda uma série de passos ou
etapas para a sua plena eficácia. Esse modelo de ensino possui um conjunto de
práticas que incluem arranjos ambientais, técnicas de interação e estratégias
baseadas nos princípios da ABA.
A
seguir, apresentaremos os passos ou etapas para implementação:
1ª
Etapa: Avaliação e coleta de dados
O
primeiro passo para implementação de um programa de intervenção em ambiente
natural é a avaliação, que se inicia com a observação do estudante em suas
atividades rotineiras. Durante a avaliação, é importante que o profissional
registre quais habilidades e comportamentos o estudante possui dificuldades e
aquelas que já domina. A coleta de dados é um registro de frequência do
comportamento ou habilidade antes de iniciar o processo de intervenção.
Com
base nos dados coletados, o profissional poderá identificar a relevância do
aprendizado do comportamento-alvo. É importante que os dados sejam coletados em
horários e lugares diferentes.
O
registro dos dados pode ser realizado por meio de tabelas, contendo os
seguintes dados: data, local de ocorrência, quantas vezes o comportamento foi
observado e anotações. Veja um exemplo de tabela:
Comportamento-alvo:
pedir água Figura 1:
|
DATA |
LOCAL |
QUANTIDADE |
OBSERVAÇÕES |
|
03/06 |
SALA
DE ESTAR |
1 |
DISSE “ÁGIA” QUANDO MÃE
SE APROXIMOU |
|
04/06 |
COZINHA |
1 |
APONTOU
PARA A TORNEIRA, NÃO VERBALIZOU |
|
05/06 |
QUARTO |
2 |
DISSE “ÁGUA”
NA PRESENA DA PROFISSIONAL |
2ª
Etapa: Definição de objetivos com os dados coletados na
avaliação, o profissional, de preferência em conjunto com a família, definirá
os objetivos das intervenções e quais habilidades ou comportamento salvo devem
ser ensinados. Esse conteúdo deverá ser elaborado em um Plano de
Desenvolvimento Individual ou Programa Educacional Individualizado. Os
objetivos são mais amplos, enquanto os comportamentos-alvo são mais restritos e
específicos, como por exemplo: Objetivo: aumentar o uso da linguagem durante as
brincadeiras.
Comportamento-alvo:
uso dos pronomes (ele/ela) de forma correta.
3ª
Etapa: Elaboração do Programa e identificação dos contextos de intervenção
as intervenções devem ocorrer ao longo do dia no contexto das
rotinas/programações diárias. O profissional deve estar amparado por amplos
conhecimentos para incorporar a intervenção nas rotinas regulares do aluno.
Essa capacidade é fundamental para implementar o programa com sucesso.
O
programa deve conter: 6 Todas as habilidades e comportamentos-alvo propostas
para ensino. Locais de intervenção. Quantidade de horas de intervenção.
Participação de membros da família ou de outras pessoas no processo.
Definição
das atividades – Atividades Dirigidas, Atividades de Rotina e/ou Atividades
Planejadas. Os contextos de intervenção podem ser a casa do estudante, a
escola, o parque ou qualquer outro ambiente.
Uma
característica fundamental do EAN é a utilização de materiais e brinquedos que
motivem o aluno a se envolverem no comportamento-alvo e que promovam a
generalização de competências. Algumas sugestões de brinquedos e objetos que
podem ser úteis: Brinquedos de empilhar e montar com várias peças.
Brinquedos
que complementem outra atividade, por exemplo: fantoches durante a leitura de
livros. Objetos que exigem assistência do profissional, como garrafas com
tampas apertadas ou peças de quebra-cabeça que são seguradas pelo profissional
e fornecidas quando solicitadas. Brincadeiras de troca de turnos, como bolas e
carrinhos lançados de um lado para o outro.
4ª
Etapa: Registro O acompanhamento por meio de registros é
fundamental para certificar o processo de aprendizagem e pode ser feito por
meio de tabelas e gráficos. Os registros devem conter algumas informações
essenciais: Nome da criança. Data que os dados do registro foram coletados.
Habilidades e comportamentos ensinados. Progresso da criança no aprendizado do
comportamento.
Outras
informações podem fazer parte do registro, a depender dos modelos adotados.
Práticas e estratégias do EAN Durante as intervenções, algumas estratégias são
interessantes para motivar o estudante a responder aos estímulos com o
comportamento-alvo definido.
Os reforços devem estar incluídos nas
atividades e são resultados naturais da resposta do estudante, por exemplo: se
um comportamento-alvo foi definido como ensinar o estudante a pedir um
brinquedo usando duas palavras, o reforço será o próprio brinquedo fornecido
pelo profissional. O EAN não requer uso de materiais específicos, e pode contar
com os objetos que o próprio ambiente apresenta. É claro que, quanto mais ricos
e variados forem os objetos e brinquedos, mais consistente será o processo de
intervenção.
A participação da família é fundamental, não
só durante o processo de intervenção, mas para garantir a continuidade do
trabalho do profissional.
Por
isso os objetivos, habilidades e comportamentos definidos devem ser discutidos
e alinhados entre todos os indivíduos que participam da vida do estudante. O
ensino em ambiente natural na Análise de Comportamento Aplicada (ABA) oferece
uma abordagem altamente eficaz para promover a aprendizagem significativa em
indivíduos com TEA.
O
EAN tem como premissa o interesse do próprio estudante nas atividades, isso
favorece o protagonismo e a autonomia e a possibilidade de generalização
daquilo que foi aprendido para outros contextos. Através do compromisso com
essa abordagem centrada no aluno e na aplicação prática dos princípios da ABA,
podemos maximizar o potencial de aprendizagem e promover uma maior inclusão e
participação na sociedade.

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