Ensino
por tentativas discretas
Ensino
por Tentativas Discretas (DTT), cuja sigla remete ao inglês Discrete Trial
Teaching, é um método de estudo estruturado, sistemático, planejado e
controlado que envolve o ensino de habilidades e comportamentos de forma
fragmentada, por meio de repetições e estímulos, seguidos de reforçamentos.
Ele
foi sistematizado pelo pesquisador, professor e psicólogo Ole Ivar Lovaas, ao
publicar um estudo pioneiro com evidências consistentes de modificação de
comportamentos de crianças autistas. Recentemente, o trabalho A Work in
Progress: Behavior Management Strategies and a Curriculum for Intensive
Behavioral Treatment of Autism (1999), dos autores Ron Leaf e John MacEachin,
se tornou um dos trabalhos mais completos e importantes sobre a aplicação do
Ensino por Tentativas Discretas, com inúmeras habilidades e exemplos de
aplicação.
A
palavra Discreta é derivada da linguagem matemática e significa que cada
tentativa possui início e fim bem definidos. O uso dos estímulos e das
respostas são cuidadosamente planejados e implementados e as recompensas são
aplicadas para reforçar uma resposta desejada.
Etapas
do Ensino por Tentativas Discretas
A
aplicação do Ensino por Tentativas Discretas possui algumas etapas essenciais
que correspondem ao processo de ensino. Cada sessão de aplicação envolve a
repetição das tentativas e cada parte de uma habilidade deve ser dominada antes
de avançar para a próxima.
Pré-treino
ou pré-teste: corresponde ao planejamento e elaboração de
um plano de estudos individual das habilidades e comportamentos, sendo que essa
estapa se inicia com a observação e discussão sobre quais habilidades deverão
ser ensinadas, podendo ser a fragmentação das habilidades em pequenos passos e
sequenciação lógica das tentativas. Além disso, há a seleção da ferramenta de
controle e registro, que pode ser feita com planilhas e quadros, a definição do
local de aplicação, geralmente em ambiente terapêutico controlado e a seleção
dos materiais a serem utilizados.
Inicialmente,
as sessões devem ser realizadas individualmente, porém, poderão ocorrer de
forma coletiva à medida que o estudante participa e desenvolve habilidades de
escuta e espera.
Antecedente
(SD): também chamado de estímulo discriminativo, é a instrução,
comando ou estímulo fornecido pelo profissional indicando ao estudante o
comportamento desejado. O SD deve ser claro e sucinto, contendo apenas um
comando ou instrução.
Resposta
(R):
é o comportamento emitido pelo estudante logo após a apresentação do SD. A
resposta poderá ser verbal, motora ou comportamental, a depender de qual
habilidade está sendo ensinada.
Consequência
(SR): ou Estímulo Reforçador, é a recompensa oferecida ao estudante
logo após a sua resposta. O SR pode ser tangível, como uma guloseima ou tempo
com um brinquedo, ou pode ser em forma de palavras de incentivo e elogios, como
“isso mesmo!” ou “muito bem”. O SR deve ser empregado imediatamente após a
resposta e pode ser positivo ou negativo. No caso de SR negativo, o
profissional pode simplesmente dizer a palavra “não”.
Intervalo
Entre Tentativas (ITI): o ITI é o tempo que o profissional deve
esperar entre o fim de uma tentativa e o início de outra. O nível de
complexidade da habilidade que está sendo ensinada, deverá ser considerado,
além da idade do estudante e as habilidades que ele já domina. Este processo
tem a função de permitir que o aluno compreenda as informações da tentativa
anterior e a passagem de um ciclo SD-R-SR para outro, sem que o aprendizado se
torne desorganizado.
Prompt: ou
dica, é qualquer informação, instrução ou ajuda que o profissional fornece ao
estudante para que ele emita uma R de forma correta. Ele deve ser utilizado
apenas quando necessário, e deve ser gradualmente retirado até que o estudante
emita uma R correta de forma autônoma. Cada tipo de habilidade ensinada pode
exigir um tipo de prompt, que pode ser verbal, visual, físico ou gestual.
Critérios
de aprendizagem
O
domínio da habilidade ocorre quando o estudante é capaz de emitir uma resposta
correta de forma consistente. De acordo com Leaf e MacEachin (1999), cerca de
80 a 90% dos estudantes aprendem uma habilidade em dois ou três dias. É
importante ressaltar que os critérios para determinar se uma habilidade é
dominada são arbitrários e dependem de fatores individuais de cada estudante.
Tempo
de intervenção
O
período das sessões vai depender de uma série de fatores como a atenção do
estudante, as necessidades de reforçamento e da complexidade das habilidades
ensinadas. Uma sessão de Ensino por Tentativas Discretas deve ter no mínimo 50
minutos e ser ampliada conforme a necessidade e as possibilidades. De acordo
com Leaf e MacEachin (1999), o tempo ideal para uma sessão, é de 2 a 3 horas
por dia, sendo que durante as intervenções, além do ITI, é necessário fornecer
uma pequena pausa nas atividades para manter a motivação e a atenção do
estudante. Essas pausas devem ser proporcionais ao tempo de um ciclo completo
de SD-R-SR.
Exemplo: para
cada três rápidas tentativas, pode haver um intervalo de 30 a 60 segundos. Para
uma tentativa mais longa, com cerca de 3 minutos, o ideal é uma pausa de 90
segundos. Para tentativas mais longas, usar a proporção de 50% do tempo para
uma pausa.
|
ESTIMULO
DISCRIMINATIVO (SD) |
RESPOSTA
(R) |
CONSEQUENCIA
(SR) |
|
“BATA
PALMAS” |
ESTUDANTE PRESTA ATENÇAO
E BATE PALMA |
“MUITO
BEM” |
|
“PULE” |
ESTUDANTE PRESTA
ATENÇÃO E PULA |
“PARABÉNS” |
|
“BATA
PALMAS” |
ESTUDANTE ESTÁ DISTRAÍDO,
MAS BATE PALMAS |
“BOM” |
|
“PULE” |
ESTUDANTE PRESTA
ATENÇÃO, MAS BATE PALMAS |
“NÃO” |
|
“PULE” |
ESTUDANTE PRESTA
ATENÇÃO, MAS NÃO RESPONDE |
“NÃO
HÁ REFORÇO” |
|
“PULE” |
ESTUDANTE ESTÁ
DISTRAIDO E NÃO RESPONDE |
“VOCÊ
NÃO ESTÁ OLHANDO” |
|
“PULE” |
ESTUDANTE PRESTA
ATENÇÃO E PULA |
“ISSO
MESMO, VOCÊ CONSEGUIU” |
Manutenção
e Generalização
Assim
que o aluno consegue executar uma tarefa completa de forma independente, é
necessário que ela seja repetida em diferentes ocasiões, em lugares diferentes
e ao comando de diferentes pessoas, para que o profissional se certifique que
ela se mantém. As tentativas de manutenção são direcionadas para a
generalização.
A generalização é a capacidade de o aluno
responder ao mesmo estímulo, sem que seja necessário o reforçamento, que é
importante para o desenvolvimento autônomo do estudante. Para favorecer a
generalização, a mesma tentativa deve ser praticada em outros ambientes, com
diferentes adultos, usando diferentes reforçadores e com diferentes estímulos
ou instruções.
Considerações
éticas do Ensino por Tentativas Discretas
As origens das intervenções direcionadas a
pessoas com Transtorno do Espectro Autista são controversas. As pesquisas de
Ole Ivar Lovaas trouxeram muitas evidências, mas também questionamentos sobre
os usos de punições severas, inclusive físicas e de privações, considerados
métodos cruéis e degradantes. Atualmente, a Análise de Comportamento Aplicada
se opõe ao uso desses métodos, e considera que o respeito pela pessoa humana
deve ser o princípio guia de toda e qualquer intervenção baseada nessa ciência.

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