Modelagem
e modelação
O
objetivo da ABA, não é somente o estudo do comportamento, mas a aplicação
prática da ciência com foco na análise e na modificação comportamental,
buscando promover o desenvolvimento e aprendizagem de habilidades socialmente
relevantes, reduzir os déficits comportamentais e tem sido aplicada de forma
exitosa no tratamento de crianças, adolescentes e adultos com Transtorno do
Espectro do Autismo (TEA).
As
abordagens da ABA passaram por diversas modificações desde os primeiros estudos
da área e atualmente são referenciadas 28 práticas.
Essas
práticas são baseadas em evidências que se mostraram significativas na
intervenção educacional para pessoas com desenvolvimento atípico e dentre elas,
estão as chamadas Modelagem e a Modelação. Modelagem e Modelação: definição e
diferenças Modelagem e Modelação são duas práticas que frequentemente aparecem
juntas no processo de intervenção educacional para pessoas com TEA, no entanto
possuem diferenças conceituais e de aplicação.
Modelagem:
Consiste
no método de ensino por aproximações sucessivas do comportamento alvo.
Modelação: É a técnica de demonstração de um comportamento ou habilidade para
aprendizado por observação e imitação. Os dois conceitos foram estudados e
estruturados por pesquisadores diferentes. A Modelagem teve origem com os
estudos de B. F. Skinner, que afirmava que as condutas poderiam ser modeladas e
mantidas a partir dos reforços, ou consequências, daquele comportamento. Já a
Modelação foi estruturada por Albert Bandura, que defendia que o aprendizado de
novas habilidades poderia ser facilitado pela observação do comportamento de
outras pessoas, pela imitação desses comportamentos e pela interação social.
Modelagem
– Moldando o comportamento A modelagem como método de ensino, se baseia em
reforçar as aproximações que o estudante faz daquele comportamento que foi
determinado como alvo e para favorecer essas aproximações, o comportamento alvo
pode ser dividido em partes. Em cada etapa do aprendizado, o estudante recebe
reforços que aumentam a probabilidade de o comportamento de repetir e se
manter.
Segundo
Catania (1999, p. 131) “a medida que o responder se altera, os critérios para o
reforço diferencial também mudam, em aproximações sucessivas da resposta a ser
modelada”. 4 Antecedente Para Sella e Ribeiro (2018), o antecedente é o
acontecimento ou estímulo que aparece antes de um comportamento ou resposta,
pode ser um comando, um pedido ou qualquer elemento que direcione um
comportamento. Por exemplo: a professora pede que os alunos abram o caderno.
O
comando verbal da docente é o antecedente para o comportamento dos alunos de
abrirem o caderno. A luz acesa do quarto, quando alguém se prepara para dormir,
é um antecedente para o comportamento de apagar a luz, nesse caso não houve um
comando verbal, mas um estímulo sensorial.
O
processo de Modelagem sempre deve partir de uma avaliação inicial e possui as
seguintes etapas:
ü Identificação
do repertório inicial.
ü 2.
Identificação do comportamento alvo.
ü 3.
Variação do repertório com reforçamento.
ü 4.
Novas respostas emitidas.
ü 5.
Comportamento alvo atingido.
A
identificação do repertório inicial se refere à primeira observação que o
profissional realiza do estudante. Nessa estapa é determinada quais habilidades
ele já domina e quais não precisam ser ensinadas, não necessitam de correção ou
que não fazem parte de seu repertório.
A
partir dessa avaliação, o profissional deverá elaborar um plano de estudos e
intervenções com a identificação dos comportamentos alvo. Além disso, o plano
de intervenções deve ser discutido com a família do estudante e quando
possível, com o próprio indivíduo, para que dessa maneira, os comportamentos
devem ser ensinados são determinados.
A
próxima etapa se refere à intervenção direta com o estudante, promovendo a
variação do repertório, que será reforçada a medida que a resposta se aproximar
do comportamento alvo, ou extinta quando a resposta não estiver de acordo com o
esperado.
O
reforçamento é uma consequência da resposta emitida pelo estudante como uma
estratégia para aumentar a probabilidade de uma resposta ser emitida após um
estímulo ou comando.
Esse
reforço funciona como um tipo de recompensa, que pode ser verbal, com uso de
palavras de incentivo, ou tangível, como uma guloseima, bebida ou tempo com um
brinquedo favorito.
Com
a variação do repertório de comportamento, novas respostas são emitidas, e
quando reforçadas, levarão o estudante a atingir o comportamento alvo. Vejamos
um exemplo.
No
repertório de uma criança com TEA foi identificada a ausência do comportamento
de escovar os dentes ao acordar ou após as refeições. Esse comportamento possui
uma sequência de habilidades que devem ser dominadas e que podem ser ensinadas
individualmente.
A
primeira habilidade pode ser a forma de utilizar a escova dental, esta será
então, a primeira intervenção.
1º
passo: A intervenção pode iniciar com a apresentação do objeto, a escova
dental, que deverá ser colocada sobre a mesa de atividades ou sobre a pia do
banheiro. O profissional então dá um comando (antecedente) pedindo ao estudante
que pegue a escova, podendo manusear suas mãos para que ele segure o objeto da
forma correta. Essa primeira aproximação será reforçada.
2º
Passo: Nesse passo, o objeto é colocado novamente sobre a mesa com o pedido
para que o estudante o pegue. Se a forma como ele segurou o objeto está
correta, sem a necessidade de o profissional manusear as mãos do estudante para
ajustar a pegada, essa resposta deverá ser reforçada.
3º
Passo: O profissional pede que o estudante leve a escova a boca. Será utilizado
o reforço a cada aproximação do comportamento alvo.
4º Passo: Nesse passo, novamente com a escova
sobre a mesa, o profissional pede ao estudante que segura a escova e a leve a
boca. Desta vez, que faça o movimento de escovação. Poderá ser necessário
manusear a mão do estudante para que ele movimente a escova em contato com os
dentes. O reforço será utilizado mais uma vez.
5º
Passo: A escova será colocada sobre a mesa e todo o comportamento deverá ser
repetido, até que o estudante segure a escova, leve a boca e faça o movimento
de escovação sem a necessidade de reforçamento.
Esse
será o comportamento alvo atingido. As próximas intervenções para ensinar o
comportamento de escovar os dentes poderão conter o uso do creme dental, o uso
da torneira e outras coisas.
O
comportamento final foi moldado, a partir de aproximações sucessivas.
Respostas: Dimensões e características Durante as intervenções, a depender do
tipo de habilidade que se está ensinando, vários tipos de respostas poderão se
manifestar.
Como
prática baseada em evidência, o processo da modelagem deve ser registrado para
certificar o processo de aprendizagem, e com isso algumas informações
importantes sobre as respostas emitidas devem ser consideradas.
Catania
(1999, p. 131) afirma que “duas respostas nunca são uma mesma resposta e o
reforço de uma resposta produz um espectro de respostas, cada uma das quais
difere da resposta reforçada ao longo de algumas dimensões”.
As
Dimensões de Resposta são as seguintes: Topografia: a aparência da resposta,
como ela se apresenta e pode ser observada. Frequência: quantidade de vezes que
a resposta aparece após um antecedente.
Duração:
quantidade de tempo que dura a resposta. Latência: intervalo entre o
antecedente e a resposta. Intensidade: é a “força” da resposta, a possibilidade
de ela acontecer sem um comando. Catania (1999) afirma que quando observadas
estas dimensões, o profissional poderá determinar quais respostas estão mais
próximas daquela desejada, podendo então selecionar estas para que sejam
reforçadas.
Como
exemplo, temos em relação a topografia, a resposta de segurar um lápis, que
está mais próxima da resposta de segurar a escova dental do que a resposta de
segurar uma bola.
Durante
o processo de ensino do comportamento de escovar os dentes, se o estudante
segura o lápis quando o profissional solicita que ele pegue a escova, essa
resposta poderá ser reforçada para se aproximar do comportamento alvo, que é
segurar a escova dental.
Registros
A Modelagem é um método consistente e que pode ser aplicado para ensino
de diversos comportamentos, destacando a importância de adotar um modelo de
registro para a certificação do aprendizado, bem como para planejar
intervenções a medida que as necessidades dos alunos se apresentam. No registro
é comum que o planejamento sofra modificações, por isso, o modelo ou tipo de
registro ficará a critério do profissional, no entanto, devem seguir padrões
pertinentes a Análise de Comportamento Aplicada.
Modelação –
Ensino por demonstração, observação e imitação A modelação é uma técnica ou
procedimento de ensino que utiliza modelos de comportamento para serem
observados e imitados. Esta técnica foi estudada por psicólogos behavioristas,
porém foi sistematizada por Albert Bandura, que embora não estivesse ligado ao
behaviorismo, forneceu grandes contribuições para o estudo dos comportamentos.
Almeida
et al. (2013) afirmam que no pensamento de Bandura, o comportamento social das
pessoas pode influenciar o aprendizado, e por isso elas seriam modelos de
aprendizagem. No processo de modelação, o profissional apresenta um modelo de
comportamento a ser observado e reproduzido, podendo ser apresentado pelo
próprio profissional, pelo educador ou pela família.
Esse
procedimento é chamado de Modelação Real, ou pode ser apresentado por meio de
vídeos, conhecido como Vídeo Modelação.
Benefícios
da Modelação e Vídeo Modelação Os principais benefícios da modelação estão
relacionados a: Prática baseada em evidências. Contribui para a interação
social.
Promove
aumento de repertório. Aplicável em contextos diversificados. Não exige
recursos específicos (exceto na vídeo modelação). Como Prática Baseada em
Evidências, a modelação está em conformidade com as dimensões da ABA,
publicadas pelos pesquisadores behavioristas da Universidade do Kansas, Donald
Baer, Montrose Wolf e Todd Risley (1968) no Journal of Applied Behavior
Analysis em sua primeira edição.
Essas
dimensões ressaltam o caráter aplicado da ABA, a partir da melhora da qualidade
de vida do estudante e da resolução de problemas de relevância social.
Ressaltam
também a avaliação de efetividade de mudança dos comportamentos após a
intervenção, da análise de evidências com dados mensuráveis, da replicação dos
procedimentos realizados e dos conceitos e princípios da Análise do
Comportamento.
A
modelação favorece a interação social, embora não seja essencial no processo de
ensino, uma vez que o modelo não precisa interagir efetivamente com o
estudante. No processo de modelação real, é importante que o estudante se sinta
a vontade para reproduzir o comportamento e a interação poderá ser fortalecida
pelo processo de modelação.
A
partir da modelação, o estudante poderá não apenas aprender determinado
comportamento modelado para ele, mas aprender a própria técnica. Isso significa
que no dia a dia, caso o estudante se depare com uma situação que não foi
previamente modelada pelo profissional, ele poderá praticar a observação e a
imitação a partir de modelos não introduzidos no ambiente terapêutico.
Outra
característica da modelação está relacionada ao uso de reforçadores. Muitas
vezes, os reforços são introduzidos de forma intencional no processo de
aprendizagem, e são oferecidos imediatamente após uma resposta emitida pelo
estudante.
Na
modelação, os reforçadores podem ou não ser utilizados, e na maioria das vezes
estão incluídos no próprio contexto da modelação.
Vejamos
um exemplo.
Um
paciente adulto com Transtorno do Espectro do Autismo possui muita dificuldade
de entrar em uma livraria que nunca frequentou, embora demonstre interesse
nessa atividade social. Todas as vezes que ele passa em frente a livraria,
sente vontade de entrar, mas não o faz por não saber como se comportar naquele
ambiente.
De
acordo com as técnicas de modelação, o paciente poderá observar outros
clientes, observar como manuseiam os livros e como escolhem o exemplar que
desejam comprar, lendo a sinopse da contracapa ou o folheando.
Depois
observa o caminho até o caixa e a forma como o cliente efetua o pagamento, e a
partir deste processo, o paciente terá subsídios para executar o mesmo
comportamento com mais segurança, compreendendo quais comportamentos são
adequados para aquele contexto.
O
reforçador do comportamento, nesse caso, será a conclusão da tarefa de comprar
um livro, fazendo com que a probabilidade de que o comportamento se repeta em
situações semelhantes seja aumentada. Vídeo Modelação – possiblidades e
desafios A vídeo modelação é uma variação da modelação em que o modelo de
comportamento é apresentado em telas, seguido da orientação para que o
estudante reproduza. Para garantir o sucesso da intervenção, são necessários
alguns cuidados: O estudante deve ter familiaridade com telas.
O
contexto de uso deve ser cuidadoso, não pode ser realizado em qualquer lugar.
Os estímulos sonoros do vídeo e do entorno devem ser controlados. Os vídeos
devem ser de boa qualidade, com resolução e iluminação adequadas.
Os
modelos utilizados nos vídeos devem ser relevantes e de fácil identificação
pelo estudante. A duração dos vídeos deve ser adequada ao comportamento a ser
demonstrado, evitando vídeos muito longos e tediosos.
O
planejamento deve envolver o roteiro do vídeo, o ambiente de exibição e o momento
da resposta/reprodução do comportamento, que pode ser imediatamente após a
exibição ou em momento posterior. Um dos maiores benefícios do vídeo modelação
é a possibilidade de reprodução ilimitada até que o comportamento seja
aprendido.
O
vídeo poderá ser assistido quantas vezes forem necessárias e a demonstração do
comportamento não estará limitada a modelação real.
A
vídeo modelação também permite um maior controle do processo de aprendizado, já
que o profissional selecionará comportamentos e situações específicas para
exibir em vídeo. Além disso, o mesmo vídeo poderá ser exibido em atendimentos
individuais ou para grupos maiores, possibilitando a flexibilidade no tipo de
intervenção.
Conclusão
A
modelagem e a modelação na psicologia representam ferramentas poderosas para
compreender e prever o comportamento humano. São duas práticas baseadas em
evidências com eficácia comprovada no ensino de habilidades socialmente
relevantes.
A
modelagem, como método de ensino por aproximações sucessivas, molda
comportamentos complexos por meio da fragmentação desses comportamentos em
pequenos passos. A modelação, por sua vez, amplia o repertório comportamental por
meio da observação de modelos.
As
duas técnicas se destacam pelas possibilidades de aplicação e flexibilidade,
podendo ser adaptadas a diferentes contextos e utilizadas em conjunto.
Portanto,
a modelagem e a modelação desempenham um papel fundamental na psicologia,
oferecendo percepções valiosas sobre a mente humana e fornecendo uma base
sólida para a pesquisa e a prática clínica.
A
aplicação consistente das práticas de modelagem e modelação, associadas a
avaliação da progressão do aprendizado, podem representar um passo fundamental
no desenvolvimento social, cognitivo e motor de pessoas com TEA, promovendo sua
autonomia e inclusão social.
