O Manejo dos Antecedentes
Intervenção baseada nos antecedentes ou manejo dos antecedentes, da sigla ABI (Antecedent-Based Interventions), é uma das 28 práticas baseadas em evidências da Análise do Comportamento Aplicada (ABA). O Manejo dos Antecedentes é um conjunto de práticas de modificações ambientais utilizadas para alterar as condições que influenciam o estudante autista a se engajar em um comportamento indesejado. Dessa forma, o antecedente é um evento, ação, circunstância ou condição que ocorre imediatamente antes de um comportamento, e o conhecimento desses antecedentes permite identificar as situações em que o comportamento foi reforçado ou punido e auxilia na previsibilidade do comportamento. Com isso, o objetivo do Manejo dos Antecedentes é identificar as condições em que os comportamentos indesejados ocorrem, para em seguida modificar o ambiente ou as atividades para que elas não provoquem tais comportamentos.
As
funções dos comportamentos no manejo de antecedentes
Todos
os comportamentos do repertório de um indivíduo possuem uma função, ou seja,
são direcionados para a satisfação de algum desejo ou necessidade. A análise da
função dos comportamentos pode ser um elemento diferencial para iniciar
intervenções baseadas nos antecedentes, já que a partir da análise da função
dos comportamentos, é possível direcionar o olhar para o antecedente de forma
proativa. Se um comportamento tiver a função de obter acesso à atenção, é
possível identificar o antecedente que desencadeia tal comportamento e
modificá-lo para que o acesso à atenção seja realizado de outras maneiras. Por
exemplo, ao perceber que a professora está auxiliando outra criança em sua mesa
de estudos, a criança autista se joga no chão e começa a se debater, esse
comportamento tem a função de obter a atenção da professora. Imediatamente, a
professora interrompe o atendimento que fazia e se dirige à criança autista,
pergunta se está tudo bem e a abraça, fazendo cessar, neste momento, o
comportamento indesejado.
Em
intervenções baseadas nos antecedentes, a orientação do profissional deverá
considerar que em um comportamento com função de acesso à atenção, a criança
com TEA deverá aprender outras formas de comportamento para chamar a atenção da
professora, ou deverá esperar a sua vez de solicitar auxílio. Além de conhecer
as funções dos comportamentos, o profissional também deve compreender os tipos
de antecedentes.
Tipos
de Antecedentes
Identificar
os eventos antecedentes significa compreender toda a dinâmica de um
comportamento em diferentes contextos, já que nenhum comportamento está isolado
completamente de suas contingências ambientais. Os antecedentes são geralmente
classificados em pelo menos três categorias: antecedentes físicos, antecedentes
sociais e antecedentes temporais; e cada tipo pode influenciar um ou mais tipos
de comportamentos indesejados.
Antecedentes
Físicos
Os
antecedentes físicos correspondem a todo o contexto do ambiente, aos objetos e
aos recursos visuais, sonoros, gustativos, olfativos e táteis presentes ou
disponíveis. Para intervir em um antecedente físico, o profissional deve
analisar quais elementos do ambiente estão relacionados a determinado
comportamento, e então agir para modificar o comportamento com base nesse
antecedente.
Por
exemplo, um estudante cobre a boca e se recusa a comer e joga o prato quando um
alimento desconhecido é colocado em seu prato. Sem uma intervenção, a
consequência mais comum seria retirar o alimento e permitir que o estudante
coma apenas os alimentos preferidos. Com a intervenção baseada no antecedente
(físico – o novo alimento), as estratégias podem incluir processos de
apresentação simultânea – colocar o novo alimento junto com outros alimentos
preferidos, esvanecimento de estímulos – introduzir o novo alimento de forma
gradual até a aceitação completa, exposições repetidas – o novo alimento é
apresentado várias vezes repetidamente, entre outras estratégias. Falaremos
mais detalhadamente sobre esses procedimentos nos tópicos abaixo.
Antecedentes
sociais
Os
comportamentos indesejados também podem sofrer influência pela presença ou
interação de determinadas pessoas ou pelo estabelecimento de regras explícitas
ou implícitas. A maneira como as pessoas interagem, pessoas conhecidas ou
desconhecidas presentes no ambiente e a forma como as regras são estabelecidas
pode desencadear um tipo de comportamento indesejado.
Por
exemplo, um estudante começa a bater em seu próprio rosto e destrói seu caderno
quando o professor pede que ele complete a tarefa na sala de aula. O professor
então se afasta e o estudante não precisa finalizar seu trabalho. Em uma das
possíveis intervenções no antecedente, o professor diz ao aluno que irá
ajudá-lo a terminar a tarefa e pede sua permissão para se sentar ao seu lado.
Os
antecedentes temporais correspondem à rotina, aos eventos planejados ou não
planejados, e aos momentos do dia. Estudantes com TEA podem ter grande apego às
rotinas rígidas e bem delineadas, e frequentemente ficam desorganizados mesmo
em pequenas mudanças em seu planejamento, por isso, os antecedentes temporais
devem ser analisados de forma que permitam ao estudante flexibilizar sua
rotina. Por exemplo, o estudante tem comportamentos agressivos pela manhã,
quando precisa ser acordado para realizar tarefas como arrumar seu quarto ou
estudar para uma prova. A mãe ou o pai do estudante então permitem que ele
durma até mais tarde e em sequência arrumam seu quarto. Ao manejar o
antecedente desse comportamento agressivo, a intervenção pode considerar
realizar alterações na rotina de forma que, ao acordar, o estudante esteja
ativo e disposto a realizar suas tarefas. O manejo pode envolver o
estabelecimento de um horário fixo para se deitar e dormir, realizar a higiene
do sono (um conjunto de atitudes e procedimentos que contribuem para a
qualidade do sono) algumas horas antes do horário habitual e limitar o uso de
equipamentos eletrônicos ou outros objetos que podem interferir na qualidade do
sono.
Identificando
elementos e implementando intervenções baseadas nos antecedentes
Antes
de qualquer processo de intervenção, é essencial que o profissional proceda uma
avaliação individual que contemple as especificidades comportamentais do
estudante. Para isso, deve-se considerar uma série de perguntas que ajudam a
guiar as intervenções e definir seus objetivos. Questões guia para uma
avaliação eficiente:
ü Onde o
comportamento está ocorrendo?
ü Com
quem o comportamento ocorre?
ü Quando
o comportamento ocorre?
ü Quais
atividades parecem aumentar o comportamento?
ü O que
as outras pessoas estão fazendo quando o comportamento ocorre?
ü Qual a
proximidade das outras pessoas?
ü Qual o
nível de ruído no ambiente?
ü Quantas
pessoas estão no ambiente?
ü Quais
outras condições ambientais e temporais estão presentes antes do comportamento?
ü Qual a
função do comportamento indesejado?
Passos para implementação de intervenção
baseada no antecedente
1.
Definição de objetivos claros e mensuráveis a serem atingidos.
2.
Coleta de dados de frequência e duração do comportamento indesejado por um
período mínimo.
3.
Coleta de dados em diferentes ambientes, contextos e com diferentes pessoas.
4.
Identificação de estratégias que abordam a função dos comportamentos
indesejados para prevenir sua ocorrência.
5.
Elaboração de um Plano Individual de Intervenção com objetivos semanais. 6.
Identificação de materiais necessários.
7.
Definição dos ambientes de intervenção.
8. Monitoramento dos progressos do estudante.
Modelos de registro e Plano Individual de
Intervenção
Os registros podem ser
adotados com base em modelos disponíveis, ou elaborados pelo próprio
profissional. A seguir estão algumas informações que a coleta de dados deve
conter e um exemplo de plano de intervenção.
Comportamento observado.
Data.
Quantas vezes.
Local de ocorrência.
Reforçamento após a
ocorrência.
Duração do comportamento (em
minutos).
Hipótese de função do
comportamento.
Procedimentos e Estratégias Utilizar as preferências
Nessa estratégia de
intervenção, o profissional deverá, durante a coleta de dados, identificar
quais são as preferências do estudante, como brinquedos, objetos, alimentos,
bebidas, momentos do dia ou pessoas. para assim, aumentar seu interesse em
atividades que não envolvam o comportamento indesejado, por exemplo uso de
figuras de personagens nos cadernos de tarefas escolares.
Alteração de horários e rotinas
Essa estratégia permite ao
estudante se adequar aos diferentes momentos do dia e podem envolver determinar
um tempo para realização de tarefas aversivas ao estudante, como, por exemplo,
o estudante deverá permanecer sentado durante 5 minutos fazendo uma tarefa, e
após esse tempo poderá receber um reforçador. A elaboração de tabelas com
horários para cada atividade e fornecer atividades durante períodos de espera é
uma técnica que auxilia no processo.
Elaboração de atividades prévias Aquelas que provocam comportamentos indesejados
Para essa estratégia, a
comunicação com o estudante é fundamental, e envolve fornecer avisos sobre as
próximas atividade, conceder tempo de descanso durante uma atividade causadora
de comportamentos indesejados, revisar tarefas e cronogramas antes dos eventos
acontecerem.
Tomada de decisões
Permite ao estudante escolher
materiais, tarefas e ambientes, como por exemplo escolher o lugar de se sentar
para o lanche, escolher a ordem das atividades a serem realizadas, escolher
brinquedos, escolher com quais colegas brincar.
Alteração do formato das instruções
Essa estratégia pode incluir
elementos de comunicação alternativa. As instruções verbais podem ser
substituídas por escrita ou cards com imagens que as representam, ou fornecidas
em uma lista de verificação, com passo a passo e detalhes que muitas vezes são
irrelevantes para pessoas típicas, mas podem ser significativas para pessoas
autistas. Aprimorar o ambiente
Intervenções no ambiente devem
favorecer o acesso a elementos que contribuem para comportamentos apropriados,
por exemplo, permitir que o estudante manuseie massinha de modelar durante uma
explicação expositiva na aula, em substituição ao comportamento de onicofagia,
ou fornecer balanço para os pés para estimulação sensorial em substituição às
estereotipias.
Para concluir, é essencial que todos os
processos de intervenção sejam acompanhados de ferramentas de registro e
monitoramento e uma constante avaliação junto a todos os envolvidos, como
professores, família, profissionais de outras áreas de atuação e do próprio
estudante, sempre que possível. Essas ações colaboram para a revisão do plano e
verificação da necessidade de modificações.

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