O
comportamento e suas funções:
O que
é comportamento indesejado?
Na
Análise de Comportamento Aplicada (ABA), as intervenções devem ser guiadas para
o ensino de comportamentos apropriados para uma vida autônoma e para a
modificação de comportamentos inadequados. Segundo Skinner (1953), todos os
comportamentos possuem uma função e são emitidos pelas suas consequências. É
pela busca da satisfação de desejos e necessidades que um indivíduo age e se
comporta na sociedade, dessa forma, para iniciar uma intervenção baseada em
ABA, não basta apenas analisar a topografia de um comportamento (a forma como
ele se apresenta e pode ser descrito), é essencial identificar sua função, ou
seja, identificar a qual desejo ou necessidade aquele comportamento é
relacionado. As quatro principais funções do comportamento são: fuga ou
esquiva, acesso à atenção, acesso a tangíveis e estimulação sensorial.
Função
de Fuga ou esquiva
A
função de fuga ou esquiva está relacionada a comportamentos indesejados cuja
topografia se apresenta na forma de evitar situações, objetos ou tarefas
incômodas ou que trazem consequências aversivas. Estudantes autistas podem
apresentar comportamentos com função de fuga quando têm dificuldades em recusar
atividades indesejadas de forma socialmente adequada, e com isso se engajam em
comportamentos indesejados ou comportamentos-problema para escapar de tarefas
não preferidas (Sella; Ribeiro, 2018).
Esse
comportamento pode se apresentar de várias formas: correr, se esconder, cobrir
o rosto com as mãos, ignorar a tarefa, ignorar instruções ou comandos, virar a
cabeça etc. Por exemplo, uma criança autista não gosta de atividades em grupo
na escola, e todas as vezes que a professora propõe esse tipo de atividade, a
criança tenta correr para fora da sala. 4 Como consequência desse
comportamento, a professora permite que a criança brinque sozinha no canto da
sala enquanto os outros colegas fazem a atividade. As intervenções
comportamentais devem criar estratégias para criar um ambiente que promova o
bem estar da estudante em atividades em grupo ao mesmo tempo em que diminua a
relação entre o comportamento e a consequência.
Função
de Acesso à atenção
Um
comportamento indesejado com função de acesso à atenção pode se apresentar em
forma de choro, gritos, agressões físicas ou verbais e ocorre quando o
estudante autista busca a atenção dos colegas, pais, cuidadores, terapeuta,
professores ou qualquer outra pessoa que poderá fornecer a consequência de
atenção. Esse tipo de comportamento pode representar dificuldades especialmente
quando emitido por autistas não verbais, que apresentam déficit na comunicação
ou não conseguem exprimir suas necessidades e desejos de forma inteligível.
Esse
comportamento pode ser exemplificado quando uma criança deseja a atenção da
mãe, ao mesmo tempo que a cuidadora está engajada em outros afazeres, e para
isso se joga no chão, se debate e grita. Como consequência, a mãe interrompe
seus afazeres e atende à demanda da criança, reforçando seu comportamento.
Nesse
caso, as intervenções devem considerar o ensino de formas adequadas de obter a
atenção, dizendo por exemplo “pode brincar comigo, por favor?” ou ensinar a
criança a compreender formas negativas da consequência, como “podemos esperar
até eu finalizar essa tarefa?” ou “neste momento não posso brincar com você”.
Função
de Acesso a tangíveis
Os
tangíveis correspondem a qualquer item material que atende ao interesse do
estudante. Pode ser um alimento, uma bebida, um brinquedo ou um objeto
preferido. Similar aos comportamentos de acesso à atenção, os comportamentos
indesejados relacionados aos tangíveis
também podem se apresentar em forma de choro, gritos ou agressões e podem
aparecer quando o tangível é retirado ou negado ao estudante, ou quando o
estudante não possui repertório comunicacional para solicitar de forma
adequada. Segundo Matson (2023), alguns comportamentos podem ter múltiplas
funções e, frequentemente, uma das variáveis do comportamento pode ser a de
acesso a tangíveis.
Por
exemplo, em um comportamento de fuga, normalmente o estudante foge para uma
atividade ou objeto preferido. As intervenções baseadas na função de acesso a
tangíveis podem incluir formas de comunicação alternativa, ensinar a realizar
pedidos de forma apropriada, ensinar a aceitar “não” como resposta a um pedido,
entre outras estratégias.
Função
de Estimulação Sensorial
Comportamentos
indesejados com essa função são geralmente chamados de estereotipias ou
stimming, e se apresentam na forma de vocalizações ou movimentos repetitivos
que não apresentam objetivos claros e ocorrem da mesma forma durante um
período. Um exemplo desse comportamento pode ser mordidas auto infligidas nas
mãos ou outra parte de corpo, entre outras formas de autoagressão. De acordo
com Matson (2023), por serem comportamentos com um reforço intrínseco, existe
uma probabilidade maior de as intervenções encontrarem resistência para
diminuir ou extinguir comportamentos de estimulação sensorial. Porém, se a
fonte da estimulação for identificada e isolada, algumas estratégias baseadas
na função podem obter sucesso, como uso de equipamentos de proteção por exemplo.
Comportamentos
sexuais individuais também devem ser analisados a partir de sua função de
estimulação sensorial. De acordo com Jung, Lunardi e Silva (2023), a
sexualidade faz parte da vida de todas as pessoas e é inerente a todo ser
humano, portanto, é necessário discutir formas de manejo dos comportamentos
sexuais com função de estimulação sensorial, principalmente por significarem
potencial de exposição de pessoas autistas à vulnerabilidade. Esse assunto é
delicado, e muitas vezes representa um tabu quando 6 relacionado à pessoas com
transtornos do desenvolvimento, porém deve ser conduzido de forma profissional
e consciente, por se tratar de um tema que faz parte da vida humana e
principalmente para garantir orientação clara e proteção às crianças, adolescentes
e adultos no espectro autista.
Mas
afinal, o que é comportamento indesejado?
Catania
(1999) define comportamento como uma relação complexa entre o ambiente, um
organismo e uma consequência da interação desse organismo com o ambiente. Essa
relação é comumente chamada de contingência de três termos: antecedente –
resposta – consequência, ou seja, o comportamento não é um ato isolado de um
contexto e não pode ser analisado com base apenas em sua aparência.
É
necessário observar as variáveis que “estão fora do organismo, em seu ambiente
imediato e em sua história ambiental” (Skinner, 2003, p. 33). Dessa forma,
comportamento indesejado ou comportamento-problema é todo comportamento que
coloca o estudante e as pessoas de seu convívio em risco, que interferem do
repertório de comportamentos adequados e que prejudicam de alguma forma o
aprendizado da pessoa com TEA.
Comportamentos
indesejados, conforme explicam Menezes e Santos (2021), podem ser práticas de
autolesão, comportamentos agressivos com potencial para gerar ferimentos ou
danos, ingestão de objetos ou substâncias não comestíveis e comportamentos
incompatíveis com o convívio social e com a noção contextual de autocuidado,
como correr em direção a uma rua movimentada, por exemplo.
Embora
a presença de comportamentos indesejados no repertório não seja parte dos
critérios definidos para o diagnóstico de TEA, a literatura aponta que pessoas
no espectro apresentam maior probabilidade de comportamentos inadequados que
podem afetar sua qualidade de vida. Portanto, as intervenções baseadas em
análise do comportamento para manejo de comportamentos indesejados devem sempre
preceder de uma avaliação.
Avaliação
Funcional: o que é e como fazer
Análise
Funcional é um procedimento utilizado para identificar as condições que mantém
a ocorrência de comportamentos indesejados. Na avaliação, as variáveis do
comportamento são analisadas em diferentes situações e a partir do olhar dos
diferentes indivíduos com quem o estudante autista convive, incluindo o do
próprio estudante. Uma Análise Funcional pode utilizar diferentes métodos e
escalas para identificar comportamentos indesejados.
“Uma
vez que encontremos os determinantes do comportamento, podemos predizê-lo
(prever a sua ocorrência) e controlá-lo (aumentar ou diminuir deliberadamente a
sua probabilidade de ocorrência)” (Moreira; Medeiros, 2019, p. 149), ou seja, a
análise funcional ajuda o profissional a intervir de maneira assertiva.
As
avaliações de uma Análise Funcional podem ser diretas, a partir da observação
em ambientes naturais, como a casa e a escola, para determinar as funções do
comportamento indesejado, e a manipulação direta de variáveis antecedentes e as
consequências desse comportamento, e indiretas, por meio de questionários e
entrevistas com a família, cuidadores, professores e com o próprio estudante,
quando possível. Essas avaliações serão a base para a coleta de dados. Após a
coleta de dados, o profissional deve:
ü identificar
os comportamentos indesejados no repertório, que devem ter sua frequência
diminuída ou extinguida;
ü identificar
comportamentos adequados no repertório, a serem reforçados para aumentar a
frequência;
ü identificar
comportamentos ausentes no repertório que devem ser ensinados e reforçados;
ü elaborar
hipóteses de análise funcional, procurando responder quais são as funções dos
comportamentos indesejados;
ü validar
as hipóteses a partir da modificação das variáveis antecedentes e as
consequências identificadas e seu reflexo na modificação dos comportamentos
indesejados;
ü identificar
comportamentos com múltiplas funções.
Por
fim, com base na análise funcional, o profissional terá elementos para promover
intervenções que tenham como objetivo melhorar a qualidade de vida do estudante
ajudando-o a diminuir comportamentos indesejados.

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